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O corpus da análise de conteúdo não precisa ser entrevista

Foto do escritor: Amália Machado
Amália Machado
6 de set.
3 min de leitura

Existe uma decisão que muita gente toma cedo demais na pesquisa qualitativa, e quase sempre por engano. É a decisão de que vai precisar entrevistar pessoas.

Ela costuma vir junto com outra conclusão, essa mais silenciosa: a de que análise de conteúdo é uma técnica para transcrição de entrevista. Quem não vai entrevistar ninguém entende que precisa de outro método, e vai procurar.

A conclusão está errada, e ela tem uma causa fácil de identificar. A análise de conteúdo é ensinada quase sempre com o mesmo exemplo, e o exemplo acabou virando fronteira.

O que a técnica de fato exige

A análise de conteúdo trabalha com qualquer material em que exista linguagem registrada. O que ela pede não é a origem do material, são duas condições sobre ele: que esteja delimitado e que os elementos sejam comparáveis entre si.

Delimitado quer dizer que existe uma regra dizendo o que entra e o que fica de fora, e que essa regra foi escrita antes da análise começar. Comparável quer dizer que os textos do conjunto podem ser lidos com as mesmas categorias, sem que a comparação vire distorção.

Transcrição de entrevista atende as duas condições. E ela não é a única coisa que atende.

Seis tipos de material que já são corpus

Documento institucional. Plano de curso, projeto pedagógico, regimento, edital, portaria, relatório anual. Material público, datado, com autoria institucional declarada e fácil de delimitar por período. É o corpus de boa parte da pesquisa em educação e em políticas públicas.

Ata e registro de reunião. Mostra o que foi decidido e, mais interessante, o vocabulário usado para decidir. Serve bem quando a pergunta é sobre processo decisório dentro de uma organização.

Matéria de jornal e revista. Um acontecimento, um período delimitado e um conjunto de veículos definido. O critério de inclusão faz aqui o trabalho que o roteiro faria na entrevista.

Post e comentário de rede social. Exige cuidado ético maior, com anonimização e critério de recorte explícito, e vale conferir a orientação do seu comitê antes de decidir. Em compensação, é material que já nasce escrito.

Resposta aberta de questionário. A pergunta aberta que quase todo mundo aplica e quase ninguém analisa direito. Ela costuma ficar parada na planilha, virando uma frase genérica no capítulo de resultados, quando é corpus completo.

Laudo, parecer e relatório técnico. Texto produzido por quem tem autoridade reconhecida no campo. Mostra os critérios da área ditos com todas as letras, o que é raro em outros materiais.

A regra que não muda

Qualquer que seja o material, você precisa declarar três coisas no capítulo de método: o período coberto, a fonte e o critério de inclusão.

Sem isso, o conjunto não é corpus, é um monte de texto reunido por conveniência. E a diferença aparece na arguição, quando alguém pergunta por que aquele documento entrou e outro, do mesmo período e da mesma instituição, ficou de fora.

Vale registrar também o que foi excluído e por quê. É um parágrafo curto que evita meia hora de discussão na banca.

Uma comparação que rende e quase ninguém usa

Existe um desenho de pesquisa barato e pouco explorado: pegar o mesmo acontecimento em duas fontes diferentes e comparar como cada uma nomeia as coisas.

Duas coberturas jornalísticas do mesmo fato. Dois documentos de instituições que disputam o mesmo tema. Dois pareceres sobre o mesmo caso, de áreas diferentes.

A diferença de vocabulário entre as duas já é achado, porque ela mostra a posição de cada fonte. E o desenho tem uma vantagem prática grande: os dois conjuntos já existem, já estão datados e já estão públicos.

Antes de montar o roteiro de entrevista

A pergunta que vale fazer é esta: eu preciso do relato de alguém sobre a experiência dela, ou eu preciso de um registro que já foi produzido.

Quando a pergunta de pesquisa é sobre experiência vivida, percepção ou sentido atribuído, a entrevista é insubstituível. Nenhum documento resolve.

Quando a pergunta é sobre como uma instituição formula uma política, ou sobre que vocabulário um campo usa para nomear um problema, o material provavelmente já existe. E usar o que existe não é atalho, é adequação entre a pergunta e a fonte.

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