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Análise de conteúdo ou análise de discurso: o que decide a escolha

Foto do escritor: Amália Machado
Amália Machado
6 de set.
3 min de leitura

As duas técnicas trabalham com texto. As duas produzem interpretação. As duas aparecem na mesma prateleira das disciplinas de metodologia qualitativa. E é por isso que a confusão entre elas é uma das mais persistentes da pós-graduação.

A escolha costuma ser explicada por afinidade, do tipo achei que combinava mais com o meu material. Só que a separação entre as duas não está no material. Está no que cada uma aceita como conhecimento válido, e essa posição já estava na sua pergunta de pesquisa, muitas vezes sem que você tivesse percebido.

Uma delimitação, antes das diferenças

Análise de discurso não é uma coisa só. O que descrevo aqui é a linha francesa, de Michel Pêcheux e, no Brasil, de Eni Orlandi, que é a mais presente nos programas de pós-graduação brasileiros. Existe também a análise de discurso crítica, de linha inglesa, associada a Norman Fairclough, com pressupostos e procedimentos próprios.

As cinco diferenças abaixo valem para a linha francesa. Se o seu programa trabalha com a linha crítica, parte do que vem a seguir muda, e vale conferir com quem orienta.

As cinco diferenças que importam

O que cada uma pergunta. A análise de conteúdo pergunta o que foi dito neste material. A análise de discurso pergunta como este dizer produz sentido, e de que lugar ele fala.

O que a linguagem é ali. Na análise de conteúdo, a linguagem é meio: ela dá acesso ao conteúdo que interessa. Na análise de discurso, a linguagem é o próprio objeto, atravessada por história e por posição.

O que vale como evidência. Na análise de conteúdo, a frequência entra, e a recorrência sustenta o argumento. Na análise de discurso, o dito uma única vez pode ser o achado central, porque o que interessa não é o quanto, é o como.

O que se exige do procedimento. A análise de conteúdo pede classificação reproduzível, ou seja, outra pessoa com as suas definições na mão precisa chegar ao mesmo lugar. A análise de discurso pede interpretação sustentada e explicitada, com o percurso do analista visível no texto.

O que significa compreender. Na análise de conteúdo, compreender é organizar e classificar o que o material contém. Na análise de discurso, compreender é saber como o objeto simbólico produz sentidos, e não extrair o que ele guardaria dentro de si.

Esse último ponto é o que mais escapa nas explicações rápidas, inclusive nas que eu já dei, e é o que separa de vez as duas.

O teste que resolve na prática

Leia a sua pergunta de pesquisa em voz alta e observe como ela começa.

Se ela começa com o que aparece, quais são, com que frequência, quais categorias emergem, o caminho é a análise de conteúdo.

Se ela começa com como se constrói, de que posição se fala, que sentidos são produzidos, o caminho é a análise de discurso.

Se a sua pergunta tem as duas coisas, ela provavelmente é duas perguntas, e vale separar antes de escolher o método.

O erro que a banca pega

As duas são defensáveis. Nenhuma é mais rigorosa que a outra, e a escolha entre elas não é uma questão de nível de sofisticação.

O que não se defende é declarar uma no capítulo de método e executar a outra na análise.

Isso acontece com frequência em um sentido específico: o texto declara análise de conteúdo, porque o nome é mais conhecido e o orientador sugeriu, e depois apresenta uma interpretação livre dos sentidos, sem sistema de categorias e sem regra de classificação. Ou o inverso, quando o trabalho se declara análise de discurso e o capítulo de resultados traz tabelas de frequência.

A incoerência não fica escondida no capítulo de metodologia. Ela aparece nos resultados e na discussão, e é ali que quem avalia percebe.

O que declarar no seu texto

Escolhida a técnica, três coisas precisam estar escritas.

A primeira é a posição epistemológica que a escolha implica, dita com todas as letras. A segunda é o procedimento concreto que você seguiu, etapa por etapa. A terceira é a relação entre a pergunta e a escolha, ou seja, por que este método responde a esta pergunta.

Uma banca atenta raramente pergunta por que você escolheu. Ela pergunta o que a sua escolha compromete, e depois verifica se o resto do trabalho respeitou esse compromisso.

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